Comunidade imigrante acompanha com cautela os desdobramentos políticos após a detenção do líder venezuelano
O jornal A Cidade conversou com venezuelanos que moram em Votuporanga ( Leandra Felipe – Agência Brasil/EBC)
Daniel Marques
daniel@acidadevotuporanga.com.br
A comunidade de imigrantes venezuelanos que reside em Votuporanga recebeu com entusiasmo a notícia da captura do ex-presidente Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, ocorrida no último sábado.
Desde o ocorrido no país vizinho, a reportagem do jornal A Cidade tem buscado contato com diversos cidadãos venezuelanos que vivem no município para registrar as impressões sobre o fato histórico, mas a maioria preferiu manter o anonimato e não conceder declarações oficiais, embora todos os ouvidos tenham relatado um sentimento de contentamento com a detenção.
Entre os residentes que aceitaram falar abertamente está Soledad Marichal Hernández, de 54 anos, que trabalha em um supermercado da cidade e vive em Votuporanga há cerca de um ano. Para ela, a captura representa um avanço positivo, embora ela ressalte que a complexidade da crise em seu país de origem é pouco compreendida externamente.
A mulher relata que muitos trabalhadores de órgãos públicos na Venezuela, como funcionários de prefeituras, estão sendo obrigados a deixar suas residências para participar de manifestações em apoio ao ex-presidente. Segundo a imigrante, as mobilizações não refletem necessariamente o sentimento popular. “Eles querem mostrar que essas pessoas estão a favor de Maduro, mas não é assim. Muitas pessoas também estão ficando em casa porque estão com medo”.
Apesar da satisfação com a saída de Maduro do poder, Soledad manifestou discordância em relação à linha sucessória estabelecida na Venezuela. A vice-presidente Delcy Rodríguez assumiu a presidência interina do país e prestou juramento nesta segunda-feira (5), perante a Assembleia Nacional. A posse ocorreu após o Supremo Tribunal venezuelano indicar a vice-chefe como chefe de Estado para um mandato renovável de 90 dias, contando com o reconhecimento oficial tanto do Exército quanto do parlamento.
Para Soledad, essa mudança não representa uma ruptura real com o sistema anterior, afirmando categoricamente que Delcy é igual ao ex-presidente: “é a mesma coisa que Maduro. Ela é igual e até pior que ele”. A visão da imigrante se estende a outras figuras da cúpula governista, como Diosdado Cabello, atual ministro do Interior, Justiça e Paz. Na análise de Soledad, tanto Rodríguez quanto Cabello mantêm as mesmas diretrizes de Maduro e não representam uma melhoria para o futuro da Venezuela, defendendo, inclusive, que Cabello também deveria ter sido levado pelas autoridades norte-americanas.
A história de Soledad em Votuporanga é compartilhada com seus três filhos, que a acompanham na cidade, enquanto outra filha e dois netos residem em Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul. A trajetória de imigração da família incluiu a entrada no Brasil a pé, um percurso comum a milhares de refugiados que buscam novas oportunidades em território brasileiro.
Atualmente, a funcionária do supermercado possui visto de residência por tempo indeterminado e já cumpre os requisitos para solicitar a nacionalidade brasileira. Mesmo diante das mudanças drásticas no cenário político venezuelano e da prisão do líder que governava o país, Soledad Marichal Hernández afirma que não possui planos de retornar à sua terra natal, optando por consolidar sua vida no Brasil. Enquanto isso, o cenário em Caracas permanece sob observação internacional, com a nova presidente interina buscando estabilizar o governo em meio à ausência de Maduro e à pressão externa que culminou na operação do último fim de semana.