Em entrevista exclusiva ao jornal A Cidade, Marcelo Fernandes detalha os momentos de horror na rodovia, a fuga pela vida e o socorro providencial
Dois adolescentes deram pelo menos 12 golpes de canivete em Marcelo Fernandes, de 56 anos (Foto: A Cidade)
Da redação
Na sexta-feira (30), Marcelo Fernandes, de 56 anos, aceitou uma corrida para Floreal. Não foi pelo aplicativo, mas sim uma indicação de um amigo e colega de trabalho. Ambos são motoristas de aplicativos, os famosos “uber”. Já no sábado (1º) de manhã, ele estava estirado na rodovia que liga Votuporanga a Floreal, ensanguentado após ter sofrido mais de 12 facadas, golpes dados por dois adolescentes. Com exclusividade, o jornal
A Cidade entrevistou Marcelo, que relatou sobre aquela madrugada.
O motorista recebeu uma mensagem de um motorista amigo seu na manhã de sexta-feira (30). Seu colega contou que tinha uma corrida programada para Floreal na noite daquele dia, mas seu carro estava com problemas mecânicos. Com isso, ele ofereceu a corrida a Marcelo. Pelo que o outro motorista informou, dois dos adolescentes eram clientes frequentes e nunca tinham dado problema.
Após aceitar a corrida, um dos jovens entrou em contato para combinar preço, horário e local. “Perguntei quantas pessoas, ele disse quatro, pra sair entre 23h30 e 0h, porque precisa esperar o outro sair do trabalho. Aí eu já pensei ‘bom sinal, já é trabalhador’. Nisso o menino já passou o endereço da casa dele, tudinho e fiquei sossegado, ia pegar ele na casa dele.”
Perto da 0h, o motorista parou em frente ao local combinado para encontrar com os passageiros. Quando eles saíram da casa, colocaram o cooler com as bebidas todas para a festa em Floreal no porta-malas. Durante a viagem de mais ou menos 40 minutos, os quatro passageiros ficaram conversando entre si, animados, “sobre mulheres, a festa, só assunto assim”, conta. “Chegando lá eles desceram, pagaram a corrida em dinheiro e em pix, tudo certinho, sem reclamar sem nada.”.
O fato de terem pagado a corrida sem nenhum problema deixou Marcelo mais tranquilo de aceitar buscá-los de volta. “Eles ligaram pra mim 5h, 5h30 da manhã, e fui lá buscar eles. Mandaram a localização, era o mesmo lugar onde os deixei.”
Depois de reencontrar os passageiros, o “uber” começou a viagem de volta. Três dos passageiros estavam no banco de trás, um estava no banco ao lado dele. A conversa ainda estava animada, e com os mesmos temas, a festa e mulheres. Passando do trevo de Nhandeara, um dos passageiros fala que está passando mal e que vai vomitar. O motorista pede para esperar pelo menos chegar na cidade, mas a vontade de, como o rapaz falou, “chamar o juca” foi maior. Marcelo encosta o carro e os três passageiros de trás saem e vão para perto de uma árvore enquanto ele fica no carro. Quando voltaram para o carro, o motorista notou que o adolescente que estava sentado atrás do banco do carona, mudou de lado e sentou atrás de seu banco. A partir desse momento, tudo foi muito rápido.
“Do nada, começou a socar, eu achei que estavam me socando. Eu estava com o carro parado. Pensei que o moleque tinha surtado. Eu não vi o sangue”, afirma. Somente quando ele desceu correndo do carro que percebeu todo o sangue escorrendo do seu corpo. Marcelo ainda contou que conseguiu tirar a chave do contato do carro, antes de sair correndo rodovia acima. “Dois correram atrás de mim, os outros dois ficaram parados lá, olhando. Quando eu vi que eles iam chegar em mim, eu mostrei a chave e joguei no meio do mato, aí eles pararam.”
Ele continuou subindo a rodovia, acenando para carros que passavam buscando por ajuda, mas ninguém parou. Em uma última tentativa desesperada, quando sentia que estava prestes a perder a consciência, o motorista quase se joga na frente de um caminhão frigorífico. “Na hora que esse caminhão veio, eu pensei ‘ou passa por cima de mim ou para’. Eu fiquei na frente, o caminhão parou,” afirma.
Após isso, um segundo carro parou. Marcelo não se lembra do nome da pessoa que salvou sua vida, mas é grato a ele. Em um dos vídeos que circularam pela internet, é possível ver o homem apoiando a cabeça do motorista enquanto tenta estancar alguns dos ferimentos. “Eu não lembro o nome dele [socorrista que parou pra ajudar], ele ajudou bastante. Ele ajudou a salvar minha vida.”
O “uber” não se lembra quanto tempo se passou entre o caminhão parar e a chegada dos policiais e da ambulância, mas ele estava consciente. Quando olhou para seu carro, quase 100m rodovia abaixo, os quatro adolescentes já não estavam mais lá. O que estava era seu celular, dentro do carro, com o pix dos passageiros. Quando os policiais chegaram, ele explicou isso a eles, falou que tinha como achar os garotos.
A vítima foi então levada para a Santa Casa, onde passou os próximos quatro dias. “Se não fosse eles, eu acho que tinha batido as botas”, afirma, agradecendo às médicas e médicos, enfermeiras e enfermeiros, técnicos e a todos que o ajudaram.
Câmeras
O carro de Marcelo tem câmeras de segurança dentro dele. Ele contou que normalmente anda com as câmeras ligadas enquanto trabalha pelos aplicativos. “Eu não liguei a câmera pra deixar o rádio ligado. Quando é passageiro normal, eu deixo gravando tudo. Como era outro motorista de uber que tinha apresentado, você não vai ter processo, nem nada”, afirma. Como a ida tinha ocorrido tão normalmente, na volta ele manteve a câmera desligada, se sentindo seguro pelo que tinha, ou melhor, não tinha ocorrido horas antes.
Corrida fora do aplicativo
Questionado se ele considera corridas feitas fora de aplicativos como clandestinas, ele respondeu que “não é uma corrida clandestina, porque é o seguinte: já é um passageiro de outro motorista, conhecido, ele já carrega, é uma viagem longa. Era pra ser uma viagem segura, pois é apresentado de outro uber”. É comum motoristas entregarem seus contatos para passageiros recorrentes ou conhecidos, com o objetivo de marcar corridas por fora dos aplicativos.
A volta ao trabalho
O tempo de recuperação ainda não acabou. Marcelo deve ficar pelo menos mais uma semana descansando, voltando a trabalhar somente depois de tirar os pontos de todos os ferimentos. O tempo veio a calhar, já que ele também vai precisar arrumar o carro. Ele não viu quando, mas o interior de seu HB20 ficou danificado e agora vai precisar de conserto, além de limpar o sangue dentro do carro.