Ormélio Caporalini, pai da vítima, entende que a pena aplicada a Rodrigo Marques foi pequena diante dos danos causados
Família do cantor Gustavo Caporalini entende que a pena aplicada a Rodrigo Marques foi pequena Foto: A Cidade
Daniel Marques
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Na noite de anteontem, após mais de 12 horas de sessão, o Tribunal do Júri de Votuporanga condenou Rodrigo Marques a 23 anos e 7 meses de prisão, em regime inicial fechado, pelo assassinato do cantor Gustavo Henrique Soares Caporalini. O crime aconteceu em 25 de fevereiro de 2024 e teve grande repercussão na cidade e região.
O pai da vítima, o servidor público Ormélio Caporalini, conversou com a reportagem do jornal A Cidade sobre o julgamento. Ele conta do alívio que sentiu ao finalmente ouvir a condenação, de todos os atrasos para começar o julgamento e se irá pedir para recorrer da sentença.
“Nós aguardávamos o julgamento, que foi protelado por tantas vezes, tentativas de retirada do foro de Votuporanga, todos os atos protelatórios para ver se caía no esquecimento a barbaridade que foi feita contra meu filho. Mas, infelizmente, por falhas na conduta do inquérito policial e na perícia técnica realizada, onde as principais testemunhas não foram ouvidas, mesmo a gente insistindo para serem ouvidas, resultou na não aceitação das tentativas contra mim e contra o meu irmão Odair”, conta.
Ele ainda explica que, junto da família, está conversando com o Ministério Público sobre “a possibilidade de recorrer dessa sentença, para que realmente esse assassino frio, cruel e covarde pegue a pena máxima, que não trará meu filho de volta, mas pelo menos terá uma sensação de justiça.”.
Ormélio ainda agradeceu ao apoio da população e de amigos que tem os ajudado e reforçou seu pedido. “Como eu disse já várias vezes, eu nunca quis vingança. Eu quero justiça”, declarou.
A sentença
Ao proferir a sentença, o juiz Ricardo Palacin Pagliuso, presidente do Tribunal do Júri, também decretou a perda do cargo público ocupado pelo réu como policial penal. Na decisão, o magistrado considerou que o condenado ultrapassou os deveres inerentes à função, rompeu a confiança depositada pela sociedade e demonstrou incompatibilidade para permanecer no serviço público. O juiz ainda destacou que a atividade exercida por Rodrigo lhe proporcionava acesso facilitado a armas de fogo, circunstância incompatível com a continuidade no cargo.
A sessão teve início às 8h, no Fórum de Votuporanga, e foi concluída às 20h51. A acusação ficou a cargo do promotor de Justiça Eduardo Martins Boiati, com atuação do assistente de acusação Carlos Alberto Silvério Júnior. A defesa foi representada pelos advogados Douglas Teodoro Fontes, Mariane Oliveira dos Santos, João Henrique Flores e Marcelo Leal da Silva. Durante o julgamento foram ouvidas vítimas, testemunhas de acusação e de defesa, além do interrogatório do acusado, antes dos debates finais e da deliberação do Conselho de Sentença.
Os jurados concluíram que Rodrigo Marques foi o responsável pelos disparos que provocaram a morte de Gustavo Caporalini. Também rejeitaram a tese de absolvição apresentada pela defesa e afastaram a alegação de que o crime teria sido cometido sob violenta emoção em razão de suposta provocação da vítima.
Na votação, o Conselho de Sentença reconheceu todas as qualificadoras apresentadas pela acusação. Os jurados entenderam que o homicídio foi praticado por motivo torpe, motivado pela inconformidade do acusado com o relacionamento entre Gustavo e sua ex-esposa. Também foram acolhidas as qualificadoras referentes ao emprego de meio cruel, ao uso de meio que resultou em perigo comum, à dissimulação — ao se identificar como “Policial Rodrigo” para conseguir atendimento na residência — e ao recurso que dificultou a defesa da vítima, surpreendida logo após abrir o portão da casa.
Ao fundamentar a pena, o magistrado destacou a elevada gravidade do caso. Segundo a sentença, o homicídio ocorreu durante uma reunião familiar, diante de várias pessoas, entre elas uma criança e uma pessoa com Transtorno do Espectro Autista (TEA), classificando o local como um verdadeiro “palco de horror”.
Apesar da condenação pelo homicídio consumado de Gustavo Caporalini, Rodrigo Marques foi absolvido das acusações de tentativa de homicídio contra Ormélio Caporalini Filho, pai da vítima, e Odair Antonio Caporalini, tio de Gustavo. Em ambas as imputações, o Conselho de Sentença concluiu que não ficou comprovada a materialidade das tentativas de homicídio, encerrando a análise logo no primeiro quesito de cada uma delas.
Além da pena pelo assassinato, Rodrigo Marques também foi condenado pelo crime de lesão corporal contra sua ex-esposa, Taila Regina Nascimento Marques. Os jurados reconheceram que ele a agrediu ao imobilizá-la com uma “gravata” e arrastá-la instantes antes do homicídio. O Conselho de Sentença ainda entendeu que a agressão ocorreu em contexto de violência doméstica e familiar contra a mulher, motivada por razões da condição do sexo feminino.
Depois da leitura da sentença, o Ministério Público e o assistente de acusação informaram que aguardariam o prazo legal para eventual interposição de recurso. O condenado também manifestou interesse em recorrer da decisão. Ainda em plenário, o juiz-presidente recebeu o recurso apresentado pela defesa e determinou a abertura dos prazos legais para apresentação das razões recursais e, posteriormente, das contrarrazões da acusação, antes do encaminhamento do processo ao Tribunal de Justiça de São Paulo.
Conforme a investigação, Rodrigo Marques foi até a residência onde Gustavo Caporalini participava de um encontro com familiares e, após se identificar na entrada do imóvel, efetuou diversos disparos de arma de fogo contra o cantor.
Além da carreira artística, Gustavo também atuava como corretor de imóveis. Ele foi socorrido por uma equipe do Samu e levado à Santa Casa de Votuporanga, mas não resistiu aos ferimentos.
Poucas horas após o homicídio, Rodrigo Marques foi localizado e preso em Campina Verde-MG, dando início a um dos processos criminais de maior repercussão da história recente de Votuporanga.
O julgamento reuniu familiares, amigos e moradores da cidade, sendo acompanhado ao longo de todo o dia por dezenas de pessoas no Fórum.