Cleide Semenzato é assistente social, escritora e atua na interface entre educação, família e políticas públicas, refletindo sobre os desafios das relações humanas e da proteção social. (Foto: Divulgação)
Minha atividade preferida sempre foi a leitura e, dia destes, ao ler “A Terceira Margem do Rio”, de Guimarães Rosa, publicado há 54 anos atrás, pasmem, fiquei me perguntando quantas pessoas vivem hoje na terceira margem? Em resumo, um pai, homem simples, trabalhador e cumpridor de seus deveres, toma uma decisão incompreensível e sem explicar os motivos, manda construir uma pequena canoa e parte para viver no rio, recusando as duas margens. Não abandona a família, mas também não retorna, permanecendo ali visível, porém inalcançável. A casa nunca mais foi a mesma, pois a mãe tenta seguir profundamente entristecida, a filha se casa sem festa e o outro filho vai embora. Já o narrador permanece preso à espera do pai deixando comida às margens do rio todos os dias, observando sua canoa ao longe, espera por um gesto, uma palavra, um abraço, mas o silêncio persiste. Penso que é justamente nessa presença ausente que Guimarães Rosa constrói essa metáfora tão profunda e terminando a leitura, percebemos que a terceira margem não pertence apenas à ficção. Ela atravessa nosso tempo, pois, a terceira margem está nas crianças que, embora cercadas de pessoas, crescem abandonadas, nos idosos esquecidos pela própria família, naqueles que enfrentam a depressão, o luto, a ansiedade ou outras formas de sofrimento carregando dores silenciosas e, pouco a pouco, deixam de ocupar o lugar da convivência, jovens isolados em seus próprios quartos e os amigos que continuam respondendo “está tudo bem”, quando, na verdade, há muito deixaram de encontrar sentido nas próprias margens da vida. Continuam vivos, próximos, mas parecem habitar outro mundo. Como no conto, o filho permanece na margem tentando manter o vínculo do afeto interrompido, mas também não atravessa o rio feito de silencio que os separa, também nós vivemos cercados pela tecnologia, nunca foi tão fácil enviar uma mensagem, fazer uma chamada de vídeo ou conversar com alguém que está do outro lado do mundo e ainda assim, as pessoas se encontram profundamente sozinhas. As travessias mais difíceis não dependem de sinal de internet, mas dependem de presença para permanecer ao lado de quem já não consegue encontrar sozinho o caminho de volta à margem. O rio metaforizado pelo escritor continua correndo hoje e atravessando nossas casas, nossas relações e quase sem percebermos, criando separações que não são geográficas, mas afetivas nos levando a inferir que a terceira margem do século XXI seja justamente a da solidão de quem permanece visível aos olhos, mas invisível ao coração. A condição de quem está presente fisicamente, mas emocionalmente distante. A primeira questão é reconhecer esse rio na nossa consciência para impedir que ele continue afastando as pessoas que amamos porque nenhuma tecnologia substitui um abraço sincero e nenhuma mensagem enviada às pressas tem o mesmo valor de uma presença verdadeiramente humana. Construir pontes é a única forma de trazer de volta aqueles que, silenciosamente, já começaram a viver em sua terceira margem.