Delegada da Mulher, Dra. Edna Rita de Oliveira Freitas, fala sobre sinais de risco, medidas protetivas e a importância da denúncia precoce
Delegada titular da Delegacia da Mulher, Doutora Edna Rita de Oliveira Freitas. ( Foto: Arquivo pessoal)
Luciana Tambuque
luciana@acidadevotuporanga.com.br
A violência doméstica contra a mulher segue em crescimento em Votuporanga e preocupa as autoridades. De acordo com a delegada titular da Delegacia da Mulher, Doutora Edna Rita de Oliveira Freitas, que concedeu entrevista exclusiva ao Jornal A Cidade, o número de ocorrências tem aumentado de forma significativa, reforçando a necessidade de informação, prevenção e denúncia.
“Atualmente, registramos cerca de cinco boletins de ocorrência por dia, muitos deles com pedido de medidas protetivas”, afirma a delegada. Segundo ela, os dados revelam que a violência doméstica não é um fato isolado, mas um problema estrutural que exige atenção contínua do poder público e da sociedade.
Além do aumento no número de registros, a delegada destaca que muitas mulheres ainda demoram a procurar ajuda, seja por medo, dependência emocional ou financeira, ou pela esperança de que o agressor mude de comportamento. Esse atraso, segundo ela, pode agravar o ciclo de violência e colocar a vida da vítima em risco.
Violência começa de forma silenciosa
A delegada explica que o feminicídio, na maioria dos casos, não acontece de forma repentina. “A violência é gradativa. Geralmente começa com a violência moral, como ofensas, xingamentos e menosprezo. Depois evolui para ameaças, cerceamento de liberdade e constrangimento, até chegar à violência física”, destaca.
Muitas vezes, esses primeiros sinais são naturalizados dentro da relação, o que dificulta o reconhecimento da violência. “Ciúmes excessivos, controle sobre roupas, amizades e redes sociais também são sinais de alerta que não devem ser ignorados”, reforça a delegada.
Para a Dra. Edna, é fundamental que a mulher procure ajuda logo nos primeiros sinais. “Quando a vítima percebe que está sendo alvo de qualquer tipo de violência, precisa tomar providências imediatamente, para evitar que a situação evolua para um crime mais grave”, orienta.
Hora certa de procurar a polícia
De acordo com a delegada, não existe um “nível mínimo” de violência para buscar ajuda. “A mulher deve procurar a polícia sempre que sentir que está sofrendo algum tipo de constrangimento no relacionamento, seja psicológico, emocional, patrimonial, sexual ou físico”, explica.
Ela ressalta ainda que a denúncia não precisa partir apenas da vítima. Familiares, amigos, vizinhos e até colegas de trabalho podem ajudar ao perceber sinais de violência, acionando os canais adequados.
Medidas protetivas salvam vidas
As medidas protetivas previstas na Lei Maria da Penha são um dos principais instrumentos de proteção à mulher. “Elas oferecem proteção imediata e visam resguardar a integridade física, psicológica e patrimonial da vítima”, destaca.
Entre as medidas estão o afastamento do agressor do lar, a proibição de contato com a vítima, familiares e testemunhas, além da restrição de frequentar determinados locais. “Geralmente, essas medidas são solicitadas na Delegacia e deferidas pelo juiz”, completa.
A delegada reforça que o pedido de medida protetiva não exige advogado e pode ser feito de forma simples, garantindo rapidez na proteção da vítima.
Descumprimento pode levar à prisão
Caso o agressor descumpra a medida protetiva, ele pode ser preso. No entanto, a delegada faz um alerta importante: “A prisão não é automática. A mulher precisa comunicar o descumprimento à polícia.”
Ela também chama atenção para situações delicadas. “Infelizmente, algumas mulheres reatam o relacionamento, não pedem o arquivamento da medida protetiva e acabam usando o descumprimento como ‘arma’ em desentendimentos, o que prejudica a efetividade da proteção”, explica.
Canais de denúncia disponíveis
Mesmo com medo, a mulher não está sozinha. “Os principais canais de denúncia são o 190, em casos de emergência, e o 180, a Central de Atendimento à Mulher”, ressalta a delegada.
Em Votuporanga, a denúncia também pode ser feita diretamente na Delegacia, no CRAM (Centro de Referência de Atendimento à Mulher) ou de forma anônima pelo telefone da Delegacia da Mulher: (17) 3421 – 7526.
Um recado direto às vítimas
Ao final, a delegada deixa uma mensagem firme às mulheres que ainda não denunciaram. “Não denunciar só protege o agressor. É importante denunciar para evitar uma violência extrema, como o feminicídio”, destaca.
Ela finaliza com um alerta contundente: “É ilusório acreditar que o homem vai mudar sozinho. Somente ao sofrer as consequências dos atos de violência é que pode haver alguma transformação”, finaliza.