Desde que o mundo é mundo, o ser humano anseia por vínculos interrelacionais. Na sua origem, a humanidade traz no bojo existencial alguma necessidade de relacionamento. Não é à toa que o Criador tenha dito em Gênesis: “Não é bom que o homem esteja só”. Esse fator pode ser um indicativo da ocorrência de uma dinâmica interativa nos mais diversificados níveis - individuais, familiares, empresariais, comerciais, nacionais e globais.
Se a humanidade intenta pela conexão, as suas realizações também caminham na mesma esteira. O mais atual exemplo disto é a globalização. Nesse quesito relacional-mercadológico, as nações acabam influenciando e sendo influenciadas. A historiografia mundial está saturada de exemplos. Através do comércio, o Antigo Egito inspirou inúmeros países com sua remota cultura. Os sumérios, babilônios, persas, gregos e romanos, também.
Mas, além do campo comercial, um aspecto de grande influência entre os povos é o da religião. As três maiores doutrinas monoteístas no mundo é o Cristianismo, o Judaísmo, e o Islamismo. Há quem diga que elas se destacaram mais pelo fato de possuírem seu próprio livro, e é inquestionável como a Bíblia e o Corão foram moldes para inúmeras culturas e povos.
Contudo, autoridades no assunto entendem que a Bíblia se sobressai aos demais, a ponto de ter impacto em um dos maiores hemisférios do globo terrestre: o Ocidente. Nesse sentido, a inspiração do livro sagrado é percebida em inúmeros ramos artísticos ocidentais. Entre os muitos exemplos, é só olhar para a Antiguidade até o Renascimento e Barroco e verá: na literatura, nas obras de artes, nas pinturas, na música e na arquitetura.
Não é preciso muita expertise nesses assuntos para perceber esse amalgama. A influência é tão vasta que ela atua como um alicerce invisível, moldando desde a nossa percepção estética até as nossas estruturas morais e jurídicas. Na literatura, ela forneceu arquétipos universais, como a queda, o sacrifício e a redenção, permitindo que autores de diferentes séculos dialoguem entre si através de um repertório comum de símbolos.
Essa presença manifesta-se como um verdadeiro “código genético” que estrutura o imaginário coletivo, fornecendo as bases para grandes monumentos artísticos e literários. É possível enxergar na pintura renascentista, como o teto da Capela Sistina de Michelangelo, até a densidade psicológica de clássicos como A Divina Comédia ou as obras de Machado de Assis, que reinterpretam temas como o pecado e a vaidade. Além das artes, esse legado sobrevive no cotidiano por meio de expressões populares como “lavar as mãos”.
Mais do que um cânone teológico, as Escrituras consolidaram-se como o horizonte compartilhado de nossa civilização, unindo o sagrado e o profano em uma tapeçaria indissociável. Compreender essa herança não é apenas um exercício de erudição histórica, mas um ato de autoconhecimento, pois, quer saibamos ou não, cada vez que buscamos justiça, criamos arte ou narramos nossa própria jornada, estamos ecoando palavras e símbolos que moldaram a alma humana muito antes de nascermos.